Autor: Alan Alves (CRP 08-26041)

Segundo Skinner (1981), o comportamento humano é proveniente da interação entre variáveis pertencentes a três níveis de seleção por consequências: filogenético, que se refere à história da espécie; ontogenético, que se refere à história de interação de um indivíduo com seu ambiente físico e social; e, por fim, nível cultural, relacionado com práticas dos grupos, transmitidas a seus integrantes de geração a geração.

Esse terceiro nível de seleção é o campo das contingências culturais, ou seja, contingências especiais de reforço mantidas por um grupo em ambientes sociais. E o fato primordial para o desenvolvimento dos ambientes sociais foi quando a musculatura vocal na espécie humana passou a ser sensível ao controle operante, o que por sua vez permitiu a evolução do comportamento verbal (SKINNER, 1981/2007).

O comportamento verbal, decorrente do domínio sobre a musculatura vocal, possibilitou aos indivíduos da espécie humana desenvolverem padrões comportamentais de cooperação, formação de regras e aconselhamento, aprendizagem por instrução, desenvolvimento de práticas éticas, técnicas de autogestão e, finalmente, o desenvolvimento do autoconhecimento ou da consciência.

Pode-se argumentar que as consequências de práticas culturais são aquelas que produzem algum efeito sobre o grupo que as pratica. Esses efeitos podem apresentar uma contribuição para o fortalecimento de uma cultura, contudo, isso não é uma regra. Skinner (1981) destacou que é o efeito no grupo o responsável pela evolução das culturas, e não as consequências reforçadoras para membros individuais.

Glenn (1988) denominou as consequências que agem sobre o fortalecimento das culturas como sendo os produtos agregados de contingências entrelaçadas de reforçamento. E medidas podem ser tomadas para acelerar o processo de evolução das culturas, ou seja, para acelerar o surgimento de novas práticas culturais e para propiciar que as contingências necessárias sejam mantidas ou criadas (SKINNER, 1971/2002). Dessa maneira, em vez de esperarmos que novas práticas surjam e sejam selecionadas por seu papel na sobrevivência de uma cultura, podemos planejar novas práticas para uma cultura mais “efetiva”.

As contingências entrelaçadas e o conceito de metacontingência, proposto por Glenn, tem contribuído com o desenvolvimento da análise da cultura de acordo com uma perspectiva behaviorista. Esses novos modelos podem facilitar a identificação de práticas culturais em diversos contextos de atuação do analista do comportamento. Além disso, a análise da cultura possibilita-nos questionamentos sobre o seu planejamento, na tentativa de um mundo melhor.

Referências

Abib JAD. “A psicologia é ciência?” O que é ciência? Psicologia: teoria e pesquisa, 9, 451-464, 1993.

Abib JAD. Arqueologia do Behaviorismo Radical e o conceito de mente. In: Guilhardi HJ, Madi MBBP, Queiroz PP, Scoz MC (Orgs.). Sobre o comportamento e cognição. Santo André, SP: ESETec Editores Associados, v. 7, pp. 20-35, 2001b.

Abib JAD. Ética de Skinner e metaética. In: Guilhardi HJ, Madi MBBP, Queiroz PP, Scoz MC (Orgs.). Sobre comportamento e cognição: contribuições para a construção da teoria do comportamento. Santo André, SP: ESETec Editores Associados, v. 10, pp. 125-137, 2002.

B.F.Skinner, Verbal Behavior (Appleton, New York, 1957).
Padrões de comportamento inato muito complexos para terem surgido como variações singulares podem ter sido modelados por mudanças geológicas resultantes do mo-vimento de placas tectônicas. [B.F.Skinner, Acta Neuro-biol.Exp., 35, 409, (1975); reimpresso em Reflections on Beha-viorism and Society (Prentice-Hall, Engelwood Cliffs, N.J., 1978)].
B.F.Skinner, Beyond Freedom and Dignity (Knopf, New York, 1971).

Glenn SS. Contingencies and metacontingencies: toward a synthesis of behavior analysis and cultural materialism. The Behavior Analyst, 11, 161-179, 1988.

Glenn SS. Metacontingencies in Walden Two. Behavior analysis and social action, 5, 2-8, 1986.

Glenn SS. Contingencies and metacontingencies: relations among behavioral, cultural, and biological evolution. In: Lamal PA (Org.). Behavioral analysis of societies and cultural practices. New York: Hemisphere Publishing Corporation, pp. 39-73, 1991.

Glenn SS. Verbal behavior and cultural pratices. Behavior analysis and social action, 7 (1 & 2), 10-15, 1989.

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