Autor: Yuri Lelis (CRP 08-26556)

No cotidiano nos relacionamos com diferentes pessoas, como amigos, familiares, colegas de trabalho, clientes, e também desenvolvemos diferentes tipos de relações, como as interações profissionais, amorosas e familiares. Essas relações podem durar desde apenas por um momento, até a vida inteira. Cada uma dessas relações possui características próprias, em que cada membro executa um papel e demonstra expectativas em relação à postura do outro com quem se relaciona. É possível dizer que uma relação pode trazer benefícios ou malefícios, a depender do comportamento dos seus membros e do comprometimento mútuo que cada um exerce. Dentre todos esses modelos de relações possíveis, temos também a relação terapêutica.

A relação terapêutica ocorre em um contexto clínico e se diferencia pelo fato de ter caráter de ajuda, do terapeuta para com o cliente. Ou seja, nesse tipo de relação, "o terapeuta, dotado de conhecimentos e de habilidades técnicas, procura criar condições para que o cliente consiga ultrapassar os obstáculos que vem enfrentando" (Alves & Isidro-Marinho, 2010, p. 69). Considerando essa característica, levanta-se a importância de o terapeuta utilizar as ferramentas disponíveis para ajudar o cliente, já que esse é o principal objetivo dessa relação. Entre as ferramentas disponíveis está, inclusive, a própria relação terapêutica.

A intervenção baseada na relação terapêutica é foco de várias abordagens da Psicologia Clínica, como na terapia centrada na pessoa e nas abordagens psicodinâmicas. Na terapia comportamental, o primeiro autor a abordar essa temática foi Fester, no início da década de 1970 (Alves & Isidro-Marinho, 2010). Fester (1972) indica que algumas características da queixa do cliente em relação à vida cotidiana podem ser observadas ocorrendo também na interação clínica, o que permite que o reforçamento (por parte do terapeuta) da performance verbal do cliente traga benefícios que se estendam além do consultório. Nessa perspectiva, a relação terapêutica é fonte de dados para o planejamento da terapia e objeto direto de intervenção clínica.

Posteriormente à contribuição de Fester, Kohlember e Tsai (2001) ampliaram o estudo do tema e desenvolveram um modelo de terapia comportamental baseado na relação terapêutica, a Psicoterapia Análitica Funcional (também conhecida pela sigla em inglês, FAP). Em linhas gerais, a FAP, como sugere seu nome, propõe uma análise funcional skinneriana do ambiente psicoterapêutico.

Essa análise é feita considerando três tipos de comportamentos observáveis no contexto clínico, chamados de Comportamentos Clinicamente Relevantes (CRBs, na sigla em inglês). O primeiro deles são os CRBs 1, os comportamentos que motivaram a procura pela terapia, ou seja, os comportamentos problema, a queixa do cliente. Considerando que no cotidiano esses comportamentos ocorrem nas relações do cliente com outras pessoas, é previsto que ocorrerão também na relação terapêutica do contexto clínico. O foco da terapia é aumentar os comportamentos de melhora, o que, em consequência reduz esses comportamentos considerados CRBs 1. Também é importante considerar que esses comportamentos são definidos com base na função na vida do cliente, sendo geralmente esquivas com base em controle aversivo.

Depois temos os CRBs 2, os comportamentos que indicam o progresso da terapia – ou seja, as melhoras do cliente em relação aos CRBs 1 que o trouxeram para terapia, e também são definidos com base na sua função. No começo da terapia é provável que os CRBs 2 ocorram em pouca frequência, e o foco é fazer com que eles aumentem ao decorrer do processo terapêutico.

E por último temos os CRBs 3: os comportamentos verbais do cliente nos quais ele analisa o próprio comportamento, descrevendo os determinantes com base na auto-observação. Essa descrição funcional do próprio comportamento pode favorecer o acesso a reforçadores na vida diária por permitir que novas formas de controle determinem o comportamento.

Com base nessas descrições comportamentais, surge a pergunta: o que um psicólogo comportamental pode fazer para reduzir a frequência de CRBs 1 enquanto aumenta a frequência de CRBs 2? A resposta está no reforçamento diferencial, que “consiste em reforçar exclusivamente aqueles comportamentos que devem ter sua frequência aumentada, submetendo, dessa forma, outros comportamentos (aqueles comportamentos que a frequência deva ser diminuída) à extinção” (Alves & Isidro-Marinho, 2010, p. 73). Aplicando a lógica do reforçamento diferencial às indicações da FAP, observamos a necessidade do psicólogo, com o uso da relação terapêutica, reforçar os comportamentos que indiquem a melhora do cliente (CRBs 2), enquanto ajuda a extinguir os comportamentos problemas que motivaram a busca por terapia (CRBs 1). Considerando a possibilidade dos comportamentos problema aparecerem em sessão, que o relato verbal do cliente contempla os dados a que o psicólogo tem acesso e a própria relação terapêutica, observa-se a importância de avaliar propostas de intervenção diretas na relação terapeuta-cliente, de forma a favorecer o aparecimento e manutenção de comportamentos mais favoráveis ao bem-estar do cliente. A relação-terapeuta é uma instância da vida do cliente e pode ser usada como ferramenta para ajudar em outros tipos de interação.

Alves, N. N. F., & Isidro-Marinho, G. (2010). Relação terapêutica sob a perspectiva analítico-comportamental. In: A. K. C. R. de-Farias (org.). Análise comportamental clínica: aspectos teóricos e práticos. (Capítulo 4, p. 66-94). São Paulo: Editora Artmed.

Ferster, C. B. (1972). An Experimental Analysis of Clinical Phenomena. The Psychological Record, 22(1), 1–16. https://doi.org/10.1007/bf03394059.

Kohlenberg, R. J., & Tsai, M. (2001). Psicoterapia analítica funcional: criando relações terapêuticas intensas e curativas. ESETec.

Comente!