Autor: Yuri Lelis (CRP 08-26556)

Dentro do campo da Análise do Comportamento (AC), temos os ramos do Behaviorismo, como filosofia da ciência, da Análise Experimental do Comportamento (AEC), como uma metodologia de pesquisa básica, e a Análise do Comportamento Aplicada (ACA), como um conjunto de aplicação dos princípios do Behaviorismo e dos dados da AEC a temas de interesse social. Como exemplos de ACA, temos os contextos mais populares de clínica e educação, e também a Análise do Comportamento Aplicada às Organizações (Organizational Behavior Management – OBM).

Como apontado por Dickinson (2001), os primeiros indícios da aplicação da Análise do Comportamento nas organizações podem ser encontrados na década de 1950, nas obras de Skinner sobre a Máquina de Ensino e no seu livro Ciência e Comportamento Humano (1953/2003), como também no artigo de Ayllon e Michael (1959), que demonstrou a possibilidade de aplicações da AC em contextos socialmente relevantes. A partir disso é possível observar um crescimento de publicações na área de OBM, principalmente em periódicos de gestão e negócios, até a criação, em 1977, do Journal of Organizational Behavior Management (JOBM), principal veículo de publicação da área até os dias de hoje, e que permitiu o estabelecimento da OBM como área da psicologia e da gestão de pessoas. A pesquisa e aplicação relacionadas à OBM podem ser divididas primariamente nos campos da Análise de Sistemas Comportamentais (Behavior System Analysis – BSA) e da Gestão de Desempenho (Performance Management – PM) (Dieder et al., 2009).

A BSA está interessada na interação entre os diferentes componentes do sistema organizacional, e busca encontrar resultados sustentáveis analisando quais componentes do sistema podem exercer impacto no desempenho geral, e está baseada no conhecimento das áreas da Análise do Comportamento e da Teoria Geral de Sistemas (TGS) (Dieder et al., 2009; Aureliano & Pessoa, 2017; Borba et al., 2017). O uso da BSA pode auxiliar a organização a “direcionar seus esforços e se adaptar mais rapidamente à mudança, o que pode levar a aumentos na lucratividade, satisfação do cliente, participação de mercado e mais” (Dieder et al., 2009, p. 109). A metodologia dessa prática envolve delinear como os componentes do sistema interagem, analisando também como cada indivíduo contribui para o funcionamento geral do sistema, permitindo o desenvolvimento de solução de múltiplos níveis, analisando componentes como “o ambiente organizacional, as partes interessadas no processo (Stakeholders), e os vários níveis que compõem a organização” (Borba et al., 2017, p. 24)

A área de PM, por outro lado, está interessada no comportamento individual de um empregado ou um grupo de empregados, e propõe uma análise de antecedentes e de consequências, de forma a reduzir comportamentos improdutivos e aprimorar comportamentos produtivos, além de aumentar a qualidade das condições de trabalho (Borba et al., 2017; Dieder et al., 2009). Esses resultados são alcançados mediante manipulação direta do ambiente, decorrente do processo de análise das contingências. Como apontado por Borba et al. (2017), os processos de interesse da PM envolvem “a análise dos efeitos do feedback e metas sobre o comportamento, bem como de outros antecedentes e consequentes do comportamento, qualidade do trabalho, esquemas de reforçamento, entre outras” (p. 24).

É importante destacar que a BSA e a PM não são áreas estritamente distintas. Em um trabalho organizacional é muito provável que os dois tipos de aplicações se sobreponham, de forma a desenvolver um ambiente organizacional produtivo e de qualidade. Por exemplo, um trabalho de BSA envolve aplicações de PM ao se trabalhar no nível dos colaboradores na análise geral do sistema da organização. Sendo assim, boa parte das vezes as áreas acabam sendo complementares, exigindo que o profissional de OBM compreenda o trabalho tanto a nível individual quanto a nível do sistema geral da organização.

Outra área da OBM que merece destaque é a da Segurança Comportamental (Behavior-Based Safety – BBS). A BBS tem como objetivo trabalhar com a prevenção de acidentes e com a promoção da saúde em ambientes organizacionais, reduzindo comportamentos inseguros e promovendo comportamentos de segurança (Borba et al., 2017; Gusso, 2017).

Observando algumas das aplicações da Análise do Comportamento ao ambiente organizacional, seja no nível individual, na análise do sistema organizacional e na promoção da segurança do trabalho, é possível notar um leque de possibilidades de trabalhos com a OBM. Utilizando os pressupostos da AC, é possível que o profissional de OBM contribua no nível organizacional a promover um modelo de organização mais produtivo e com menos desperdícios, e que também seja mais saudável e prazeroso para os colaboradores envolvidos no processo de produção.

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Referências

Aureliano, L., & Pessoa, C. V. B. B. (2017). Análise de Sistemas Comportamentais: uma proposta de análise e intervenção nas organizações. In Vilas Boas, D. L. O., Cassas, F., Gusso, H. L. (Orgs.). Comportamento em Foco (Vol. 5, Cap. 3, pp. 41-52). São Paulo: Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental.

Ayllon, T., & Michael, J. (1959). The psychiatric nurse as a behavioral engineer. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 2(4), 323-334.

Borba, A., Ramos, C. C., & Ramos, T. D. (2017). O surgimento da Análise do Comportamento Aplicada às Organizações. In Vilas Boas, D. L. O., Cassas, F., Gusso, H. L. (Orgs.). Comportamento em Foco (Vol. 5, Cap. 1, pp. 13-27). São Paulo: Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental.

Dickinson, A. M. (2001). The historical roots of organizational behavior management in the private sector: The 1950s-1980s. Journal of Organizational Behavior Management, 20(3-4), 9-58.

Diener, L. H., McGee, H. M., & Miguel, C. F. (2009). An integrated approach for conducting a behavioral systems analysis. Journal of Organizational Behavior Management, 29(2), 108-135.

Gusso, G. L. (2017). Desafios ao Analista do Comportamento no Campo Organizacional Brasileiro. In Vilas Boas, D. L. O., Cassas, F., Gusso, H. L. (Orgs.). Comportamento em Foco (Vol. 5, Cap. 6, pp. 77-86). São Paulo: Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental.

Skinner, B. F. (2003). Ciência e comportamento humano. (Trad. João Carlos Todorov) São Paulo: Martins Fontes. (Original publicado em 1953).

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