Autor: Alan Alves (CRP 08-26041)

A cultura ocidental, continuamente, estimula a busca pela felicidade e a evitação de sentimentos considerados desagradáveis, tais como a tristeza, a raiva, o medo, a ansiedade e outros. Além disso, defende-se que os sentimentos e os pensamentos causam os comportamentos observáveis, de forma que “o indivíduo agride porque está com raiva” ou “chora porque está triste”, por exemplo. Você já ouviu esse tipo de explicação ou comentário?

No entanto, segundo o modelo explicativo da Terapia de Aceitação e Compromisso (Acceptance and Commitment Therapy – ACT), fundada em 1987, pelo norte-americano Steven Hayes e colaboradores (Saban, 2011), os comportamentos são definidos pela interação entre o organismo e o ambiente. Sob esse ponto de vista, comportamentos privados (como pensar, sentir e lembrar) não estabelecem relação de causalidade linear com os eventos públicos, bem como não são passíveis de controle (Hayes & Wilson, 1995; Hayes, Strosahl, & Wilson, 1999; Hayes, 2004).

Assim, o indivíduo não “agride porque estava com raiva”... a relação é um pouco diferente. E isso quer dizer que você pode sentir algo (ter um pensamento de raiva, por exemplo), mas não agir necessariamente de uma só forma (no caso, agredindo alguém). Se há uma direção de vida que o indivíduo deseja tomar, pode ser que ele sinta aquela raiva do momento sem reagir agressivamente e isso o aproxime mais da vida que ele deseja experimentar no futuro. Essa direção é conhecida na ACT como um “valor”.

Luoma, Hayes e Walser (2007) apresentam a seguinte definição de valores no âmbito da ACT: "Um valor é uma direção - uma qualidade da ação”. Segundo Hayes et al. (1999): “os valores não podem ser alcançados e mantidos em estado estático; eles precisam ser vividos" (p. 231). Dessa forma, o ponto-chave está em definir os valores como qualidades da ação.

Hayes (2004) propõe que a ACT busque identificar pensamentos e sentimentos que controlam comportamentos de esquiva experiencial, a fim de que o cliente mude conforme os seus valores, desenvolvendo padrões comportamentais cada vez mais amplos e efetivos.

Pela perspectiva da ACT, qualificamos o comportamento do sujeito como valorativo ou não valorativo de acordo com os valores estabelecidos por ele. Uma ação é valorativa quando está em consonância com os valores do sujeito e não o é quando transgride esses valores de alguma forma.

É justamente por esse motivo que, para a ACT, os valores não são objetivos (Hayes, 2004a; Hayes et al., 2006; Hayes et al., 1999; Wilson & Murrell, 2004; Wilson & Sandroz, 2008; Wilson et al., 2010). Nesse sentido, um objetivo é um projeto, um comportamento, um sonho que pode ser realizado e é determinado. Podemos chegar em um dia e riscar da nossa lista de objetivos. Por exemplo, a pessoa pode ter o objetivo de casar, de fazer uma faculdade, de viajar para França, de terminar de ler um livro especial, etc. Já um valor, não pode ser realizado de uma vez por todas. Um valor é como um norte, como uma orientação. Ao invés de “casar-se”, poderíamos usar a honestidade e a fidelidade, por exemplo.

Qual seria, então a função dos valores na ACT? O objetivo da ACT é ajudar o indivíduo a manter uma “trajetória comportamental na vida que seja vital e valorizada” (Hayes et al., 2009, p. 205). Todas as técnicas da ACT estão subordinadas a esse objetivo maior, que é o de ajudar o cliente a viver de acordo com os valores que escolheu.

Assim, são os valores do cliente que estabelecem o plano de trabalho do terapeuta da ACT (Hayes, 2004a, 2004b; Hayes et al., 2006; Hayes et al., 1999; Wilson & Murrell, 2004; Wilson & Sandroz, 2008; Wilson et al., 2010). Sem os valores, não há proposta terapêutica. Em adendo, todas as técnicas da ACT só fazem sentido à luz dos valores do cliente. Continuando com Hayes et al. (1999):

Praticar aceitação e desfusão significa caminhar por pântanos de ansiedade, perda, tristeza e confusão. Os valores fornecem o contexto que explica por que essas experiências difíceis estão sendo contatadas. Pela perspectiva da ACT, são os valores que fazem a vontade e a aceitação mais do que a simples tentativa de reduzir as experiências desagradáveis através da exposição. (p. 132).

Viu a importância dos valores para a Terapia da Aceitação e Compromisso? É possível afirmar, sem exagero, que os valores são o eixo central da ACT. Eles dão sentido ao próprio processo terapêutico que a caracteriza.

Referências

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